Arte fornecida pela autora · Revista Fórum
Raymundo Faoro descreveu os donos; Rubem Fonseca, quem paga por eles. Dois escritores, o mesmo Brasil visto de lados opostos do espelho.
O mesmo país, dos dois lados do espelho
O feed escalou os dois - O estamento agora é digital.
“Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo.”. O Cobrador de Rubem Fonseca sabia exatamente o que lhe deviam – e não tinha pudor nenhum em nomear. Fonseca escreveu isso em 1979. Raymundo Faoro, vinte anos antes, havia descrito com precisão quem devia: a elite que governa o Brasil há seis séculos, que se apropria do Estado como patrimônio próprio e chama isso de administração pública. Um descreveu os donos. O outro descreveu quem paga por eles. Dois escritores, décadas diferentes, o mesmo país visto de lados opostos do mesmo espelho.
Faoro e Fonseca nunca foram lidos juntos. Deveriam. O que um diagnosticou como estrutura, o outro narrou como consequência – e a consequência, em Fonseca, não é abstrata: tem nome de dente arrancado sem anestesia, de ódio que se alimenta quando a cólera diminui. “Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta.” Hoje a televisão é o feed. O ódio continua. A estrutura que Faoro descreveu também. A conta segue aberta – e agora é administrada em algoritmo.
Seis séculos de estrutura
No centenário de Raymundo Faoro – e também de Rubem Fonseca -, o debate público brasileiro dedicou pouca atenção a autores que continuam extraordinariamente atuais. A estrutura analisada por Faoro não desapareceu. Apenas passou a operar por meio de instrumentos que ele não poderia conhecer – algoritmos, plataformas, microtargeting e inteligência artificial -, sem abandonar a lógica de concentração de potência que sua obra descreveu com notável precisão.
Faoro toma de Weber o conceito de estamento e o reconfigura para o Brasil. O estamento não é classe social – as classes negociam, os estamentos governam. É uma camada definida pela honra e pelo pertencimento a um grupo que se percebe qualificado para o exercício do poder. Seus membros pensam e agem sabendo que fazem parte do mesmo círculo elevado – e agem em consequência.
“O estamento supõe distância social e se esforça pela conquista de vantagens materiais e espirituais exclusivas. O fechamento da comunidade leva à apropriação de oportunidades econômicas, que desembocam, no ponto extremo, nos monopólios de atividades lucrativas e de cargos públicos.” – Faoro, Os Donos do Poder
A origem está na ausência de feudalismo em Portugal. Ao contrário da Europa ocidental, onde o poder emanava da propriedade da terra e gerou progressivamente uma burguesia autônoma, Portugal construiu um Estado que precede e organiza a economia. As colônias inglesas na América do Norte receberam outro modelo: colonos que precisavam se auto-organizar, sem grande metrópole provedora, o que gerou uma cultura de mercado, contrato e autonomia civil. O Brasil nunca teve esse espaço – o Estado sempre chegou antes da sociedade civil. Das capitanias hereditárias ao Senado Federal, a mesma lógica: quem está dentro distribui, quem está fora aguarda. E a corrupção não é desvio do sistema: é o sistema operando normalmente.
A dívida do outro lado do espelho
O Cobrador de Fonseca não tem nome – a função é sua identidade. Sabe exatamente o que lhe devem. Sabe quem deve. E vai cobrar. Entre o processo legislativo que não revela seus fundamentos e o Cobrador que sabe exatamente o que lhe devem, está o Brasil: de um lado, a máquina que gerencia sujeitos sem escutá-los; do outro, quem já não espera mais ser escutado. O conto termina em aberto – sem desfecho moralista. Fonseca não entrega a resolução. Entrega o diagnóstico: “Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo.” Não é otimismo. É o que acontece quando a dívida acumula por tempo suficiente sem ser reconhecida.
O amigo do amigo do meu pai
Em abril de 2019, a revista Crusoé publicou uma reportagem baseada em documento da Operação Lava Jato. Nele, o empreiteiro Marcelo Odebrecht respondia a um pedido da Polícia Federal sobre a identidade de um personagem citado num e-mail como “amigo do amigo de meu pai”. Odebrecht respondeu: tratava-se de Dias Toffoli, então presidente do STF. A reportagem foi censurada por Alexandre de Moraes – que determinou sua remoção imediata, intimou os jornalistas para depor em 72 horas e aplicou multa de R$ 100 mil por dia. O STF censurou a si mesmo, em favor de si mesmo.
“Amigo do amigo de meu pai” – a expressão não é vocabulário exclusivo da cúpula institucional. É a língua do estamento em todas as suas camadas: da Suprema Corte à facção marginal, do contrato público à boca de fumo, do gabinete ministerial ao conjunto habitacional. O que muda é o objeto da transação – não a lógica que a organiza. Faoro havia nomeado isso: a lealdade pessoal que substitui o critério público impessoal, a rede de favores que opera ao largo do arcabouço normativo que o próprio estamento constrói. A corrupção não é exceção – é o vernáculo.
O feed escalou as características de ambos os lados sem alterar a estrutura: os Donos mais desavergonhados, os Cobradores com mais ódio acumulado. Mas o confronto direto não acontece – porque o sistema cuidou de embaçar o nexo causal. O sujeito sente o ódio mas não consegue identificar claramente o objeto. A polarização serve ao estamento: enquanto os Cobradores disputam entre si qual espectro é mais legítimo, a dívida real – a de Faoro, a de Fonseca – continua impaga.
Espectros, retrotopia e a dívida que se desloca
O filósofo Jacques Derrida cunhou o conceito de “hantologie” (hauntology): o presente habitado por fantasmas do passado que não foram propriamente sepultados nem propriamente incorporados – espectros que assombram sem nunca serem completamente presentes. O feed é uma máquina de produção de espectros: seleciona quais fantasmas alimentar, quais fazer circular como combustível identitário.
Em Retrotopia (2017), Zygmunt Bauman nomeou o fenômeno complementar: quando o futuro perde credibilidade, o passado se torna destino. As utopias modernas sempre apontavam para frente – um mundo melhor a ser construído. O que o século XXI produziu foi a inversão: a nostalgia como projeto político, o passado recuperado como promessa. O feed opera nas duas dimensões simultaneamente: produz espectros de histórias que não foram vividas e projetos de recuperação de um passado que nunca existiu exatamente assim. A hauntology fragmenta os Cobradores em disputas identitárias; a retrotopia os orienta para o passado. A dívida concreta de Fonseca dissolve-se em identidade performática – e a conta real continua impaga.
Um povo que passa a se identificar com a história de outro povo via microtargeting acaba reivindicando reparação por uma dor que não viveu. O estamento financia essa reivindicação porque ela não ameaça nada de concreto. O Brasil já tem seu próprio espectro para habitar – mais radical do que qualquer narrativa importada. Darcy Ribeiro chamou de povo novo: emergência traumática de algo inédito que não descende de nenhum povo original. Édouard Glissant chamou de “crioulização”: algo radicalmente novo emerge, e essa novidade não pertence a nenhuma das partes. É a soberania que o feed não consegue capturar inteiramente – e que Caetano Veloso nomeou em O Quereres: “Onde queres Leblon, sou Pernambuco / E onde queres eunuco, garanhão.” O Brasil que não cabe em nenhuma régua, que responde a qualquer projeto de adequação com o que não foi pedido. A “bruta flor do querer” que o estamento não consegue administrar completamente.
Hauntology na música eletrônica No início dos anos 2000, a expressão hauntology passou a identificar um segmento da música eletrônica marcado por ecos, ruídos, gravações degradadas e pela sensação de um tempo assombrado por memórias e futuros não realizados. Por afinidade estética, a faixa “Reversed Beginning” (2018), de Luwaks , evoca essa experiência ao sugerir um tempo que parece avançar e retornar ao mesmo instante.
O que cresce no subterrâneo
Em Germinal, Zola acompanha uma greve de mineiros que fracassa. A mina inunda. Os trabalhadores morrem. E no último parágrafo, algo começa a germinar sob a terra – em sementes que nenhuma derrota consegue parar. O que faz essa germinação possível, invisível à superfície, são os micélios: as redes subterrâneas dos fungos que sustentam ecossistemas inteiros sem receber reconhecimento. O fungo é o micélio – não o cogumelo que se vê, mas a rede que cresce na escuridão. O fungo negro de Chernobyl captura radiação ionizante e a converte em energia – num processo chamado radiossíntese. Não sobrevive apesar da radiação: a radiação é sua fonte de vida. Chernobyl não é obstáculo – é substrato. É por essa lógica que qualquer processo de regeneração democrática opera: não apesar do colapso deliberativo e da captura tecnopolítica – mas através deles.
A Roda Ciranda de Martinho da Vila nomeia a temporalidade que isso exige – como Nêgo Bispo sempre sinalizou: início, meio e início. “A roda é pra rodar na gira / Da vida que roda.” Três gerações num mesmo movimento: a moça, a velha, a criança. O tempo interior, contínuo, necessário à formação de consciência coletiva – o que Bergson chamou de “durée”, incompatível com o ritmo instantâneo do feed – é exatamente o que o processo democrático precisaria cultivar.
O Cobrador de Fonseca termina em aberto. A dívida não foi quitada. Mas o personagem descobriu algo: “Meu ódio agora é diferente. Tenho uma missão.” Entre o Cobrador que nomeia a dívida e os Donos que a administram com o “amigo do amigo de meu pai”, há um espaço que o feed ocupa com espectros e retrotopias.
Há coemergência na regeneração do espaço público que o panóptico digital degradou – e da política que, como Habermas evocava, costumava habitá-lo. Entre mundos, entre tempos – sem a certeza da utopia, sem a ilusão da retrotopia, sem a paralisia da nostalgia. O micélio cresce no entre.